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Honduras: “GLÁUBER SOARES NOS PRESENTA: FACE EMPLUMADA”

web5Se asas são pra voar, Face Emplumada tem ido longe. Desta vez foi dar um rolê em Honduras, mais precisamente na Revista Contextos, de Tegucigalpa.

“…por qué digo esto, porque en el mundo hay millones de libros, de miles de escritores, unos buenos, otros no tanto. Pero seguramente un libro que no podría faltar en esa colección es “Face emplumada” del brasileño Gláuber Soares, un libro con una interesante historia, y que fue recientemente presentado en su natal Brasil.

El equipo editorial de Contextos, a veces podemos llegar a sentirnos como el bibliófilo de nuestra digresión, porque quisiéramos tener el poder de incluir en nuestra revista lo mejor de lo mejor de la cultura universal, así como también a esos talentos nuevos que estamos seguros llegaran muy lejos.

Gláuber, es un talento brasileño, no es un novato, tampoco es un consagrado de las letras, pero si, ya está encaminado a lograr ser uno de los que pondrán en alto su tierra. Con dos libros en su haber, este joven contador de historias nos ofrece una obra exquisita, con contenido de calidad; Gustavo, un joven de veintiocho años de edad, analista financiero, admirador de Camus, Sartre, reflexionará a lo largo de la obra sobre “la integridad moral”. Su vida recorre sin grandes acontecimientos, hasta el día que decide ir tras una chica, y vivir la mayor aventura de su vida.

Aparte, Gláuber, nos presenta en esta novela una serie de personajes inolvidables que a pesar de no ser los protagonistas de la historia, dejaran en el lector la marca y la satisfacción de haber leído “Face emplumada”.”

Leia a matéria completa clicando aqui.

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“Face Emplumada” no Letras et cetera

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Foto: Fernando Rocha

Resenha de Face emplumada, por Fernando Rocha, para o Letras et cetera:

“Se território pode ser compreendido como espaço, seja ele familiar ou estranho, talvez este seja um ponto importante para se atentar ao realizar a leitura de Face emplumada, primeiro romance do escritor baiano radicado em São Paulo, Gláuber Soares. De certo modo, trata-se de um romance de estrada, de desterritorialização, uma vez que o deslocamento geográfico, do interior de São Paulo à capital e de lá, ao sertão nordestino, gera também certo nomadismo identitário. Ao se deslocar espacialmente, a personalidade do narrador-personagem também se desloca, torna-se outra, não deixando de ser a mesma.

Além do espaço, outra instância que chama a atenção no romance é o foco narrativo. A estória é contada em primeira pessoa pelo protagonista Guto, um jovem nascido numa cidade do interior de São Paulo, que migra para a metrópole com o intuito de trabalhar. Na primeira parte da obra, denominada Azul-marinho, há na sinestesia das cores enunciadas, mas não contempladas por conta do daltonismo, um sentimento de isolamento que acompanhará a personagem, funcionando como metonímia do seu fazer parte sem pertencer: Perceber, enfim, todos os tons que não vejo. Mas ainda tenho dúvida. Eu seria mais feliz ao encontrar a diferença entre o marrom e o vermelho? (pg. 13)”

Leia a resenha completa em: http://nanquin.blogspot.com/2016/01/resenha-do-romance-face-emplumada.html#ixzz3wg2Ya9VZ

 

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Deu no “Sonhos e Melodias”

FaceMaçaGuardiã dos livros. Roseli Pedroso é escritora, bibliotecária e blogueira. Acabou de escrever em seu Sonhos e Melodias uma resenha bacana para o romance Face emplumada. Como autor, acho bem legal saber onde o livro toca em cada pessoa. No caso da Roseli, ela disse que gostou “demais do Guto, personagem central mas, confesso que me encantei com seu Galdino, personagem árido feito seu sertão…”. Em outro momento ela relata: “os conflitos que se apresentarão a Guto, durante sua trajetória nos solos semiáridos do nordeste, mostrarão o quanto a vida pode ser dura, áspera mas, que também nos presenteia com delicadezas e belezas, naturais ou não. O crescimento de Guto enquanto ser humano, é o grande “pulo do gato” que o leitor acompanha passo a passo em uma deliciosa leitura.”

Confira a resenha completa aqui.

 

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Entrevista para o “Pianista Boxeador”

No final de 2015, Daniel Lopes me entrevistou para o seu blogue Pianista Boxeador, aqui reproduzido:

O escritor Gláuber Soares fala um pouco sobre o seu processo criativo, sua vida, suas leituras, suas influências, conversa ainda sobre a origem do seu segundo livro e primeiro romance publicado Face Emplumada, a sua estreia na literatura foi com o livro de contos Remédio Forte, o qual foi traduzido e será lançado esse ano na Argentina…

capaSeu primeiro livro publicado foi a coletânea de contos Remédio Forte; entretanto, você já escrevia textos de maior fôlego antes de se dedicar à forma mais sintética que constitui o conto. Como se dá a passagem de uma forma literária à outra no seu processo de criação? Quando começa a escrever, você já tem certeza da extensão? Ou aos poucos o texto vai se constituindo como romance, novela ou conto?

No início, só pensava em textos mais longos. Já imaginava o começo, o meio, o fim. No ano de 2000, comecei a escrever o meu primeiro romance finalizado (não publicado). Em 2002, ele estava pronto — no formato tradicional de livro daria umas 160 páginas. Somente após participar de uma oficina de criação literária, em 2010, comecei a escrever contos, meio que por obrigação. Praticando, acabei me apaixonando também pela forma dos contos. Suas nuances. Hoje, geralmente, eu penso: tal enredo daria um romance ou conto. Mas Face Emplumada desorganizou a minha lógica. Comecei escrevendo o que seria um conto. O texto foi ficando mais longo, pedindo mais personagens, enfim, percebi que ali a melhor forma seria uma novela ou romance.

Já que  mencionou a criação de personagens, devo dizer que achei muito interessante a galeria de personagens que atravessam Face Emplumada, desde o cabeleireiro queer Sandrinho até o Seu Galdino da fazenda Asa Azul. Considerando que a construção de um romance envolve cinco instâncias que se interpenetram (a saber, o tempo, o espaço, a linguagem, o enredo e as personagens. Há romances cuja força motriz está no tratamento do tempo, como À sombra do vulcão, de Malcolm Lowry; há romances cujo centro é a desterritorialização, o tratamento do espaço, como On the road, de Kerouac; Clarice Lispector desconstrói a linguagem, Luiz Brás recoloca o enredo em evidência e ao falar de Dom Casmurro, logo pensamos na personagem enigmática de Capitu…) Você diria que, enquanto criador, a sua maior potência está na criação das personagens ou em uma das outras quatro instâncias? Sei que tais categorias não surgem compartimentadas quando se escreve algo, mas quando você relê o trabalho, onde você acha que está a maior força da sua escrita?

Rapaz, neste ponto não sei se tenho a melhor resposta. Não costumo consumir energia me autoanalisando. Nem tenho as ferramentas teóricas para isto. Mas, sem fugir de uma resposta, eu me preocupo mais com a linguagem e com o enredo, balancear essas duas instâncias. As performances, forças das personagens, a meu ver, vêm como consequências deste balanceamento.

Acho que a linguagem também é uma força da sua prosa: enxuta, desenvolta, variável; vai das gírias mais urbanas à musicalidade mais sertaneja. Penso, inclusive, ser um traço extremamente original da sua escrita esta mistura do provinciano e do cosmopolita, do urbano e do rural. Já na epígrafe, você une provérbio baiano e David Bowie. A trajetória de Gustavo vai do interior de São Paulo, à capital paulista e de lá à Quixadá. Na música, também muito presente no livro, nós vimos essa antropofagia, essa deglutição do pop pelo pelo sertanejo, tanto no tropicalismo, quanto no mangue beat. Diz aí, na literatura quais são suas influências na criação deste estilo híbrido? E nas outras artes? Quais são os artistas de esferas exteriores à literatura que influenciam sua escrita?

Na literatura, curto bastante o João Antônio, Luiz Bras, Marcelino Freire, Patativa do Assaré, Lygia Fagundes Telles, entre outros. Nas artes plásticas, Carybé, o mais baiano dos argentinos, sua vasta obra me desperta a atenção. A música sempre me influenciou. Das batidas às letras; de Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi a Morrisey e Ramones. Lembro-me que ainda no meu primeiro romance citado, imaginava o projeto do livro com um CD encartado, ou seja, tinha a sua trilha sonora. Em Face Emplumada, Bowie foi um dos músicos que me inspirou, ajudou a dar o tom.

O que mudou e o que se manteve na sua escrita de Remédio Forte aFace Emplumada?

Remédio Forte foi uma coletânea de contos. Havia a preocupação social, passagem do tempo, a morte – temas que dão unidade ao livro. Algumas narrativas, como Próximo, Juntinhos, Rio Cachoeira, Isabela e o conto que dá nome ao livro já sinalizavam para este estilo mais impregnado em  Face Emplumada. Acredito que não houve mudança, talvez tenha tido um amadurecimento, uma afirmação.

Você publicou Face Emplumada por uma editora independente, como enxerga o mercado editorial brasileiro?

Para quem está preocupado com a arte, e não em ser uma celebridade, o comportamento do mercado não faz muita diferença. Levando em conta os números da população brasileira, o nosso mercado editorial, principalmente o literário, é incipiente. Somos um dos países da América Latina em que menos se lê. As grandes editoras ganham dinheiro vendendo livros didáticos para os governos. No gênero Literatura, meia dúzia delas formam uma elite que se mantém no topo com os best-sellers importados. Com alguma exceção, não estão preocupadas com a literatura brasileira, desejam o lucro fácil. Os prêmios literários ajudam a maquiar. Tentam, com o glamour, iludir, e até têm conseguido, como se a desprezada literatura nacional tivesse, de fato, importância. O que sobrou da mídia não percebe o engodo. Um outro vilão são as livrarias. Não investem no processo de publicação – tudo bem, este não é o papel delas, no entanto, as livrarias só querem levar vantagem. Muitas só aceitam livros em consignação e pra pagar à editora, quando pagam, pedem um prazo de 90 dias. É claro que os maiores grupos editoriais têm poder de negociação. O que não impediu a excelente Cosac Naify, há pouco, noticiar que vai fechar, dando como um dos motivos este longo prazo. Ainda assim, diante de tanta dificuldade, nem tudo está perdido. As pequenas editoras, com as suas pequenas tiragens, continuam fomentando a nada incipiente arte literária brasileira.

Há algo que você gostaria de dizer, mas não foi perguntado nesta entrevista? Fique à vontade.

Apenas dizer para os leitores ficarem atentos com a cena literária paulista. Você sabe, Daniel, temos uma geração de ótimos escritores. Poesia, romance, conto, há muita coisa boa sendo feita por aqui. O seu romance A Delicadeza dos Hipopótamos, por exemplo, é um livro sensacional. Enfim, prestigiem mais a literatura brasileira.

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Análise de “Face Emplumada” pelo escritor Alba Atróz

Alba Atróz

Alba Atróz

Acabei a leitura de Face emplumada, romance de Gláuber Soares, e o que pude observar é que a perturbação do daltônico Gustavo, ou Guto para os íntimos, o protagonista e narrador da história, não vem somente da dificuldade de diferenciar cores – o que é característico de tal anomalia genética -, mas, sobretudo, sua perturbação advém de como percebe criticamente o seu entorno ou o mundo à sua volta e como se sente incapaz de lhe dar com a vida dentro de um cotidiano sistemático que o engaiolou e lhe faz sentir-se desencontrado na solitude da quitinete – longe da vida e família interiorana – e onde só encontra comunicação intrapessoal e interpessoal com o famoso personagem de ninguém mais ninguém menos que o músico recentemente falecido David Bowie, falo de Ziggy Stardust, um confidente fiel de Guto, estampado num pôster colado na parede, e de quem o protagonista de Face emplumada é muito fã. Naufragado em questões existenciais, o protagonista sente-se ilhado no centro urbano em que habita e, para ele, as coisas não estão bem legíveis e explicadas não – sempre lhe é estranho olhar da janela e ver os “zumbis” da cidade subirem a rua para usar drogas para suportar existir ou “desexistir” dentro de um estilo de vida que fragmenta e isola pesando muito sobre as costas de todos. Seu daltonismo – descoberto tardiamente e por acaso – é-lhe uma metáfora que só se soma ao íntimo desespero intrínseco em seu ser. Não são só os órgãos responsáveis pela visão que lhe trazem traumas, mas suas memórias deturpadas desde a infância, lesões em seu próprio universo podado, suas vontades próprias, seus gostos e interesses pessoais, suas utopias responsáveis por seus batimentos cardíacos, cortes e barragens que lhe davam sempre a visão turva daquele realismo angustiante e um profundo sentimento de despertencimento e incapacidade de ser-se no lugar que morava. Sabia que tinha que se reinventar, ceder ou mentir para si mesmo, isto lhe era claro. Até mesmo os “pets” que desejou ter, nunca pôde: “Pedi um hamster pra mamãe. Depois coelho, porco, galo, sapo, iguana. Gato e cachorro, animais que lambem suas feridas nunca quis. Ela não atendeu a nenhum dos meus apelos…”. O jeito foi adotar escondido uma barata então, numa caixa de papelão, longe do olhar de seus opressores – principalmente da visão e julgo rígido de seu pai que lhe oprimia sob a superproteção materna e quem ajudou a fraturar vínculos afetivos importantes dentro da família. Chamou de Linda a barata, um ser que todos acham feio e repulsivo, que todos repudiam, menos ele, um oposto e contrário do mundo que se via forçado a viver. Seguir o mesmo caminho ambicioso, em trampos que julgam ser bons, em sonhos de consumo que encadeiam a simplicidade e bloqueiam a liberdade de ir e vir sem ser questionado, algemando o ser humano em máquinas, calculadoras, em relações efêmeras, interesseiras, para o personagem é uma forma de opressão de sua própria essência que lhe cobra sua liberdade, pois ele não faz parte daquela aceitação fria das relações e dos negócios onde quem pode mais chora menos; e o sistema mostra isto despedindo sem motivos, sem dó, sem pena, o que para eles é descartável e substituível, a não ser que se façam alianças nepotistas, corruptas ou se estabeleça casos extraconjugais que corrompam éticas de respeito nas relações humanas. Como se jogar de um lugar onde ele se sente estranho, longe de si, estereotipado por seus habitantes que o cercam e contribuem para oprimi-lo num circo triste cheio de ausências, perdas de vínculos afetivos, relações profundas sem envolver bens materiais. Enfim, na azáfama da grande metrópole estava insuportável continuar, era preciso encarar uma possível solução. A amizade com o homossexual cabeleireiro Sandrinho e com a vizinha gostosona Paula, lhe trazia provas concretas da importância de se ter amizades verdadeiras. Estes dois personagens seriam o porto mais seguro de Guto quando o momento de felicidade e paz momentânea, que buscou, chegasse ao fim e o devolvesse à vida que, infelizmente, teria que tolerar, mesmo não aceitando. Foi no salão de Sandrinho, enquanto esperava sua vez para cortar o cabelo, que se sentiu instigado a buscar um novo horizonte e fugir da prisão. Sentiu-se chamado pela história de um tal Ceará que contava a um amigo sobre o dia que conheceu em Quixadá, caatinga cearense, uma galega coxuda, universitária, cheirosa e cabaça ainda, numa tal fazenda chamada Asa Azul, sob a tutela de um velho avô dela. O Ceará sugeria-lhe indiretamente uma possibilidade de safar-se e refazer sua vida em outro lugar, conhecer um novo horizonte e, principalmente, uma garota excitante. Aprendeu a pilotar moto, comprou os acessórios e indumentárias de um típico motoqueiro, lutou para conseguir férias e partiu numa aventura, num impulsivo destino, excitado em conhecer a tal galega e o lugar onde ela vivia. É claro que os resultados disso tudo não podem ser contados aqui, mas as decepções que a morte pode trazer, a quebra de expectativa, as possibilidades que ela tira-nos e nos dá estão presentes quando ele chega. A amizade com o viúvo e solitário, velho Galdino, parece que foi um encontro com o pai que ele não teve, e que o transformou no rústico sujeito feliz e sem vontade de regressar. Porém, aprendeu também que será sempre linchado, sempre acuado, sempre estereotipado, onde quer que pise como a coruja alcunhada de Face Emplumada de Maçã Cortada ao Meio. Ela era como se fosse ele no meio urbano, talvez. A ave tornou-se o pet que o protagonista nunca teve, ela tornou-se uma redenção de seu próprio ser, talvez, não somente o mascote que rondava o sítio emitindo os seus sonoros assobios e que o povo supersticioso tinha como mau agouro – e que, também, um dia foi atingida na asa e precisou ser tratada e devolvida à natureza pelo próprio Guto que precisava também ser curado e voltar – era um alerta de que a vida tem começo-meio-fim, não tem jeito, e que podemos – se tivermos sorte – voltar em forma de uma pipa de um menino, aprendendo que a vida é da maneira como nós a enxergamos ela pairar sobre nós e os outros, dentro dos conceitos de existência, e como ela nos locomove de um jeito ou de outro rumo à fatídica cova já aberta e à nossa espera dentro do estilo de vida ou arapuca em que o ser humano está metido.

 

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Entrevista para o Letras et cetera

Sem título

Fui entrevistado pelo Fernando Rocha (escritor, professor, formado em Português/Inglês e blogueiro) para o Letras et cetera:

Já no início de 2014, Gláuber Soares faz sua estreia literária, nos prescrevendo seu Remédio Forte (Terracota), o qual contém 22 contos, espalhados em 113 páginas, que podem ser lidos em apenas uma sentada, sem perigo de causar qualquer efeito colateral.

O escritor nasceu em Itabuna (BA). Vive em São Paulo desde 1983, formou-se em Jornalismo. Participou das coletâneas de contos: Abigail (2011), Dos medos o menor (2012) e A arte de enganar o Google (2013). Mantém o blogue Glaub TI: http://www.glaubersoares.com.br

Parece haver uma distinção entre aquele que escreve textos literários e os publica em blogues, redes sociais e afins e o escritor, sujeito que tem um livro publicado. Como você percebe isso?

Talvez alguns façam mesmo esta distinção, como se o escritor com livro publicado estivesse num patamar acima. Para mim literariamente depende sempre da qualidade do texto, independente da mídia.

Em seu livro de estreia Remédio Forte, a passagem do tempo está presente como um dos temas centrais. Como este tema te afeta?

Me afeta de forma natural. Como o tempo não para, coloco-me impassivo a observar o seu rastro de construção e destruição, nem sempre nesta ordem. Procuro o lirismo em suas rugas, a verdade entre os escombros. Depois, com ajuda da literatura, eu o aprisiono em algumas páginas – é a minha vingança.

Não ser nascido em São Paulo, cidade na qual você vive, te possibilita ainda ter um olhar estrangeiro sobre a metrópole-caos? Como isso influencia sua escrita?

Mesmo que eu chegue aos noventa anos morando em São Paulo ainda assim me sentirei um estrangeiro. Se tivesse nascido aqui provavelmente não amaria tanto esta cidade. Eu não queria sair de minha Itabuna, mas aos quatorze anos tive que escolher entre morar no Rio ou em São Paulo. Apesar de gostar do Rio, acho que fiz a escolha certa. Espanto repulsa, encantamento, admiração, as múltiplas sensações que sentimos ao conhecer uma cidade, as sinto a todo o momento em São Paulo e, claro, se refletem na minha escrita.

Sem o sarcasmo contido em algumas narrativas de Remédio Forte, você poderia ser tido como um escritor fatalista. Como esta distinção acontece na concepção de seus textos? É algo racional ou intuitivo?

Algumas vezes racionais, noutras intuitivas. A vida é fugaz. Enquanto a morte não chega, estamos, quase sempre, celebrando o nada. Somos o gado que rumina na fila do abatedouro, sendo o nosso capim os smartphones, a tevê e agora também o Facebook.

Você participou de algumas oficinas literárias, no que elas contribuíram para a sua escrita?

Contribuíram bastante. O meu primeiro romance – não publicado – finalizei ele em 2002. Ainda não havia participado de oficinas literárias. Tinha preconceito. Neste período eu trabalhava como repórter no Jornal da Tarde. Quando ia pra literatura meu texto continuava jornalístico, explicativo demais. Somente a partir do final de 2010, por indicação de uma amiga, participei de uma série de oficinas na Terracota. A experiência foi excelente. Minha escrita amadureceu. Na prosa e poesia tive aulas com os escritores Luiz Bras, Marcelino Freire, Edson Cruz – lá descobri que um dia eles foram alunos de oficinas literárias, não havia pecado. Importante também são os contatos, muitos colegas viraram amigos. Mas o processo é dolorido, assim como elogios, há críticas, às vezes duras. Além da escrita, você precisa dominar o seu ego ou então desiste.

Qual a principal contra indicação do seu livro?

Para este Remédio Forte não há contra indicações. Mas em caso de suspeita de dengue pare de ler e corra pro hospital.

Os contos foram escritos como projeto para um livro ou você compilou textos acumulados ao longo da sua vida-de-escritor?

Rolou uma mescla. Alguns contos foram escritos pensando no livro, mesmo testando antes em blogues, como Uma Tarde de Sorte, por exemplo. Do “estoque” procurei selecionar os que tinham a mesma unidade.

A linguagem concisa que você utiliza na lapidação dos seus contos é uma tentativa de concentrar o pouco que importa no muito que há de vida ou é apenas uma questão de estilo?

Está mais para estilo. Quando a frase começa a ficar grande acho que estou enchendo linguiça.

O que é escrever para você? É uma forma de salvação da falência total que é a vida?

Ao transformar uma imagem num texto se o resultado final me agradar: escrever é uma grande satisfação.

Te atormenta confundirem sua obra com a sua vida?

(risos) Não adianta dizer que ali não sou eu, então, na boa: Madame Bovary sou eu mesmo.

Em algumas de suas narrativas temos a sensação de que o narrador é alguém dotado de uma super-visão, este artifício se deve a sua formação em Jornalismo?

O jornalismo me ajudou no senso crítico, menos pela formação acadêmica ou trabalhando, mais como leitor que sou (ou era) desde adolescente. Sobretudo se deve a música. Cresci ouvindo Geraldo Vandré, Raul Seixas, Luiz Gonzaga. Depois vieram Os Paralamas com Alagados, Legião Urbana, Smiths, U2, Camisa de Vênus, Plebe Rude, Inocentes… minha visão de mundo e reflexões se deram a partir da música.

 

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