Análise de “Face Emplumada” pelo escritor Alba Atróz

Alba Atróz

Alba Atróz

Acabei a leitura de Face emplumada, romance de Gláuber Soares, e o que pude observar é que a perturbação do daltônico Gustavo, ou Guto para os íntimos, o protagonista e narrador da história, não vem somente da dificuldade de diferenciar cores – o que é característico de tal anomalia genética -, mas, sobretudo, sua perturbação advém de como percebe criticamente o seu entorno ou o mundo à sua volta e como se sente incapaz de lhe dar com a vida dentro de um cotidiano sistemático que o engaiolou e lhe faz sentir-se desencontrado na solitude da quitinete – longe da vida e família interiorana – e onde só encontra comunicação intrapessoal e interpessoal com o famoso personagem de ninguém mais ninguém menos que o músico recentemente falecido David Bowie, falo de Ziggy Stardust, um confidente fiel de Guto, estampado num pôster colado na parede, e de quem o protagonista de Face emplumada é muito fã. Naufragado em questões existenciais, o protagonista sente-se ilhado no centro urbano em que habita e, para ele, as coisas não estão bem legíveis e explicadas não – sempre lhe é estranho olhar da janela e ver os “zumbis” da cidade subirem a rua para usar drogas para suportar existir ou “desexistir” dentro de um estilo de vida que fragmenta e isola pesando muito sobre as costas de todos. Seu daltonismo – descoberto tardiamente e por acaso – é-lhe uma metáfora que só se soma ao íntimo desespero intrínseco em seu ser. Não são só os órgãos responsáveis pela visão que lhe trazem traumas, mas suas memórias deturpadas desde a infância, lesões em seu próprio universo podado, suas vontades próprias, seus gostos e interesses pessoais, suas utopias responsáveis por seus batimentos cardíacos, cortes e barragens que lhe davam sempre a visão turva daquele realismo angustiante e um profundo sentimento de despertencimento e incapacidade de ser-se no lugar que morava. Sabia que tinha que se reinventar, ceder ou mentir para si mesmo, isto lhe era claro. Até mesmo os “pets” que desejou ter, nunca pôde: “Pedi um hamster pra mamãe. Depois coelho, porco, galo, sapo, iguana. Gato e cachorro, animais que lambem suas feridas nunca quis. Ela não atendeu a nenhum dos meus apelos…”. O jeito foi adotar escondido uma barata então, numa caixa de papelão, longe do olhar de seus opressores – principalmente da visão e julgo rígido de seu pai que lhe oprimia sob a superproteção materna e quem ajudou a fraturar vínculos afetivos importantes dentro da família. Chamou de Linda a barata, um ser que todos acham feio e repulsivo, que todos repudiam, menos ele, um oposto e contrário do mundo que se via forçado a viver. Seguir o mesmo caminho ambicioso, em trampos que julgam ser bons, em sonhos de consumo que encadeiam a simplicidade e bloqueiam a liberdade de ir e vir sem ser questionado, algemando o ser humano em máquinas, calculadoras, em relações efêmeras, interesseiras, para o personagem é uma forma de opressão de sua própria essência que lhe cobra sua liberdade, pois ele não faz parte daquela aceitação fria das relações e dos negócios onde quem pode mais chora menos; e o sistema mostra isto despedindo sem motivos, sem dó, sem pena, o que para eles é descartável e substituível, a não ser que se façam alianças nepotistas, corruptas ou se estabeleça casos extraconjugais que corrompam éticas de respeito nas relações humanas. Como se jogar de um lugar onde ele se sente estranho, longe de si, estereotipado por seus habitantes que o cercam e contribuem para oprimi-lo num circo triste cheio de ausências, perdas de vínculos afetivos, relações profundas sem envolver bens materiais. Enfim, na azáfama da grande metrópole estava insuportável continuar, era preciso encarar uma possível solução. A amizade com o homossexual cabeleireiro Sandrinho e com a vizinha gostosona Paula, lhe trazia provas concretas da importância de se ter amizades verdadeiras. Estes dois personagens seriam o porto mais seguro de Guto quando o momento de felicidade e paz momentânea, que buscou, chegasse ao fim e o devolvesse à vida que, infelizmente, teria que tolerar, mesmo não aceitando. Foi no salão de Sandrinho, enquanto esperava sua vez para cortar o cabelo, que se sentiu instigado a buscar um novo horizonte e fugir da prisão. Sentiu-se chamado pela história de um tal Ceará que contava a um amigo sobre o dia que conheceu em Quixadá, caatinga cearense, uma galega coxuda, universitária, cheirosa e cabaça ainda, numa tal fazenda chamada Asa Azul, sob a tutela de um velho avô dela. O Ceará sugeria-lhe indiretamente uma possibilidade de safar-se e refazer sua vida em outro lugar, conhecer um novo horizonte e, principalmente, uma garota excitante. Aprendeu a pilotar moto, comprou os acessórios e indumentárias de um típico motoqueiro, lutou para conseguir férias e partiu numa aventura, num impulsivo destino, excitado em conhecer a tal galega e o lugar onde ela vivia. É claro que os resultados disso tudo não podem ser contados aqui, mas as decepções que a morte pode trazer, a quebra de expectativa, as possibilidades que ela tira-nos e nos dá estão presentes quando ele chega. A amizade com o viúvo e solitário, velho Galdino, parece que foi um encontro com o pai que ele não teve, e que o transformou no rústico sujeito feliz e sem vontade de regressar. Porém, aprendeu também que será sempre linchado, sempre acuado, sempre estereotipado, onde quer que pise como a coruja alcunhada de Face Emplumada de Maçã Cortada ao Meio. Ela era como se fosse ele no meio urbano, talvez. A ave tornou-se o pet que o protagonista nunca teve, ela tornou-se uma redenção de seu próprio ser, talvez, não somente o mascote que rondava o sítio emitindo os seus sonoros assobios e que o povo supersticioso tinha como mau agouro – e que, também, um dia foi atingida na asa e precisou ser tratada e devolvida à natureza pelo próprio Guto que precisava também ser curado e voltar – era um alerta de que a vida tem começo-meio-fim, não tem jeito, e que podemos – se tivermos sorte – voltar em forma de uma pipa de um menino, aprendendo que a vida é da maneira como nós a enxergamos ela pairar sobre nós e os outros, dentro dos conceitos de existência, e como ela nos locomove de um jeito ou de outro rumo à fatídica cova já aberta e à nossa espera dentro do estilo de vida ou arapuca em que o ser humano está metido.

 

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