Crônica: Do Caramba

Pintura de RenoirAlgumas gírias entram no meu vocabulário sem pedirem licença. Outras nem batendo à porta. Não abro. Tá ligado?

“Massa” só digo quando algo é mesmo massa, meu rei. Vi, na minha infância, ela se disseminar pelos carnavais baianos.

“Da hora” é paulistana. Anda fora de moda. Teve o seu apogeu nos anos noventa. Nunca entrou no meu vocabulário.

“Dedéu” só podia ser carioca. Ainda gosto. Aprendi na adolescência quando visitava meus tios no Rio. Flavinho dizia “dedéu” pra dedéu. Eu, às vezes, não pra dedéu, ainda falo.

“De boa” não curto. Talvez porque me lembre o desinfetante Q’Boa – desde criança minha mãe me proíbe ingerir. Hoje arde menos nos meus ouvidos. Mas, pela minha garganta, hipoclorito de sódio não passa.

“Galera” nunca usei. “Balada” já. “Irado”, apesar de me irar bastante, também nunca! “Sinistro” não acho maneiro. “Abobrinha” sempre escrevo.

Agora, na boa, a gíria que está tomando o lugar da minha querida, de origem espanhola, “caramba”, é a carioca “caraca”. Ambas alternativas ao palavrão. Nos primórdios, quem dizia “caraca!” era apenas a garotada descolada que via Malhação. Mas hoje eu ouço, além da molecada, adultos, vovôs e vovós dizerem: “caraca!, véi”. Isto me assusta.

Essa coisa que sai do nariz – isso mesmo, segundo o Michaelis, caraca é aquela secreção nasal ressequida – tomou as ruas, escritórios, escolas, cursos, igrejas, parques, shoppings… Os bebês saem da maternidade dizendo: “ca-ra-ca!, mãe. Aqui fora é irado”.

É preciso cuidado. A internet pode tornar essa palavra global. Já pensou? O mundo, enfim, pode ser contaminado. Imagine Obama, com seu sotaque americano, voz potente, apontar para Lula e em vez de dizer “That´s my man” falar algo do tipo: “That´s my caraca”. Não. Isto não soaria nada bem.

Preocupante mesmo é que esses dias me peguei dizendo “carac…” – ai credo, por sorte parei antes do sacrilégio.

Mas, suave, pode ficar tranquila. Piegas ou não, enquanto houver força, vou resistir. Continuaremos a envelhecer juntos. Não a trocarei assim por uma jovem remelenta qualquer.

Ouviu? Ca-ram-ba!

Por Gláuber Soares

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3 comentários sobre “Crônica: Do Caramba

  1. Estou aqui me divertindo pois caraca vive mais na minha boca que em meu nariz, rsrs. Nossa língua é muito engraçada e rica ao mesmo tempo e as gírias também. Que venham outras para que eu esqueça a tal de car…não, não! Vou te respeitar e não irei completar. Muito boa essa sua crônica!

  2. Muito legal essa sua digressão sobre as gírias. E como sou de uma geração anterior à sua, lembro de outras abomináveis como “mora” (isso é bacana mora…), “pão” (aquele cara é um pão) e tantas mais. O melhor disso tudo é que elas enfeiam a lingua por uns tempos, mas depois passam. Felizmente! rs

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