Lançamento “Abigail”

“Abigail Bovary.
Abigail Karamazov.
Abigail Bloom.
Abigail Sansa.
Abigail de Beauvoir.
Abigail de La Mancha.
Abigail Bovary.
Abigail Karamazov.
Tantas são as Abigaís deste mundão sem fronteiras que não dá nem pra contar.
As mais perigosas são as de olhos de ressaca, de cigana oblíqua e dissimulada. As mais generosas são as travestidas de macho, como a moça guerreira daquele romance do Rosa.
A primeira Abigail – demônio angelical – mordeu o fruto proibido do Jardim do Éden. A última – anjo demoníaco – certamente comandará os exércitos do Apocalipse.
Dizem que todas as Abigaís que andam por aí não passam de avatares da Abigail mítica, meio homem meio mulher, meio criança meio velho, metade dia metade noite, nascida antes da criação do mundo.
No princípio era o A e foi pra dizer o A de seu nome que o Fodão-Mor abriu a boca e provocou o Big Bang. Verbo, substantivo, adjetivo: Abigail era tudo isso, e as coisas foram moldadas pelo desejo incontrolável de ver sua silhueta desprender-se do espaço-tempo. A existência, fruto do ventre de Abigail, resultado da cópula primordial, fez dela a primeira a se perder. Acometida pela paixão, encantada pela voz do Proclamador e por tudo que Ele fez sair dela, Abigail se deixou seduzir pela Sua fama de Mau. Coitada, crente no idílio, foi logo despachada pelo Megalomaníaco pra ir viver no meio da macacada. Não, Ele não queria saber de mulher opinando em Suas tábuas. Abigail, sempre tão dedicada, ainda virgem de sensações, ficou um tempo assim meio deprimida, até resolver que se tivesse uma escada voltaria lá e daria uns tapas no Canalha.
De lá pra cá já foi queimada tantas vezes que até de nome teve que trocar: Lilith, Afrodite, Betsabá, Cleópatra, Madalena, Joana, Bereman. Sempre cuspindo na cara dos machos alfas e zetas, remoendo o Macho primordial que não soube compartilhar o controle remoto.
Já queimou sutiãs, inventou a pílula, escreveu a lei do divórcio, ensinou como se enrola um baseado, mas entre todas as suas invenções está o Clube das Musas, um grupo de seletas Abigaís que inflam o ânimo dos escritores, levando-os ao pecado mortal da Literatura, sua maior e mais vingativa invenção.
Bem, se tudo isso for verdade, várias facetas contemporâneas dessa Abigail legendária podem ser encontradas nos contos desta coletânea.
São vinte e um contos. Vinte e uma Abigaís de variada origem, estatura, moralidade, inclinação política e sexual.
Umas protagonizam, outras se disfarçam e desaparecem entre os coadjuvantes.
Venha. Junte-se a elas. Você logo se reconhecerá nessa multidão.
Como diria Flaubert: Abigail sou eu, é você, somos todos nós.”
Claudio Brites
Nelson de Oliveira

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3 comentários sobre “Lançamento “Abigail”

  1. Queridão!!!
    Não sou um leitor atento … mas estou gostando de seus textos. Muito mais maduro … mas mostrando/demonstrando o escritor que você é!!!

    Se me permitir: é por aí ….parabéns e obrigado!!!

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