Crônica: Do Caramba

14 mai

Pintura de Renoir

         Algumas gírias entram no meu vocabulário sem pedirem licença. Outras nem batendo à porta. Não abro. Tá ligado?

         “Da hora” gíria paulistana. Anda fora de moda. Teve o seu apogeu nos anos noventa. Nunca entrou no meu vocabulário.

         “Dedéu” é carioca. Ainda gosto. Aprendi na adolescência quando visitava meus tios no Rio. Flavinho falava “dedéu” pra dedéu. Eu, às vezes, não pra dedéu, ainda falo.

         “De boa” não curto. Talvez porque me lembre o desinfetante Q´Boa – desde criança minha mãe me proíbe ingerir. Hoje arde menos nos meus ouvidos. Mas pela minha garganta hipoclorito de sódio não passa.

         “Galera” nunca usei. “Balada” já. “Irado”, apesar de me irar bastante, também nunca! “Abobrinha” sempre escrevo.

         Agora, na boa, a gíria que está tomando o lugar da minha querida, de origem espanhola, “caramba” é a carioca “caraca”. Ambas alternativas ao palavrão. Nos primórdios, quem dizia “caraca!” era apenas a garotada descolada que via Malhação. Mas hoje eu ouço, além da molecada, adultos, vovôs e vovós dizerem: “caraca!, véi”. Isto me assusta.

         Essa coisa que sai do nariz tomou as ruas escritórios escolas cursos igrejas parques shoppings. Os bebes saem da maternidade dizendo: “caraca, mãe! Aqui fora é irado”.

         É preciso cuidado. A Internet pode tornar essa palavra global. O mundo, enfim, pode ser contaminado. Imagine Obama, com seu sotaque americano, voz potente, apontar para Lula e ao invés de dizer “That´s my man” dizer “That´s my caraca”. Não. Isto não soaria nada bem.

         Preocupante mesmo é que esses dias me peguei dizendo “carac…” – cruz credo, por sorte parei antes do sacrilégio.

         Piegas ou não, enquanto houver força vou resistir. Continuaremos a envelhecer juntos. Não a trocarei assim por uma jovem remela qualquer.

         Ouviu?, ca-ram-ba!

                                                                                                                            Por Gláuber Soares


         PS: Caraca, segundo o Michaelis:
         Secreção nasal ressequida.
         Súber de certas árvores. Casca de ferida ou de pereba no período da cicatrização. Crosta de sujidade na pele. O mesmo que craca.

Conto: O Jejum

11 abr

Tudo pronto. Quarteirão cercado pela polícia. Helicóptero Águia. Ambulância. Os atiradores de elite aguardavam a ordem. Um cachorro atravessa a rua. Antes disso…

O casal e seu filho adolescente sentiam-se vazios. Solitários. Frios. Quase não se falavam. Reclusos em seus dispositivos. Não brigavam. Não discutiam. Sabiam que faltava algo naquela casa. Mas o quê?

O marido decidiu ir ao apartamento do amigo pastor. Na rua de cima. Esse amigo trazia sempre uma boa palavra. “Oração não faz mal para ninguém. Vamos lá”, assim ele convenceu a esposa e o filho a também irem.

– Durante todo o sábado não vão usar celular, internet, nem assistir tevê. Será um jejum total para o Senhor.

– Isso é impossível – disse o adolescente. – Como os meus amigos vão me achar sem internet e celular?

– Vou perder as novelas no sábado? – se perguntou a mulher.

– Rádio pode? Poderia acompanhar o meu time pelo rádio – quis saber o homem.

– Não. Será um jejum eletrônico: total.

– O que vou fazer sem o meu netbook, game, smartphone?

– Se vejam. Se cheirem. Conversem. Sintam-se. Vivam-se.

– Ficar sem o Face? Sei não. Acho que vou passar mal. Não vou aguentar.

– Você pode ir ao parque, teatro, cinema. Leia a Bíblia. Libertem-se dos seus eletrônicos… Ou continuem escravos.

Na noite de sexta, enfim, concordaram que nas vinte e quatro horas do sábado iriam fazer o tal jejum.

O tablet do marido e a tevê permaneceram desligados no café da manhã.

– Que silêncio – disse a mulher.

– Estranho, né? Mas, sabe?, até que não é ruim.

– É. Me sinto, sei lá, diferente. Não sei explicar… Cortou o cabelo, bem?

– Cortei desde a semana passada. E você mudou a cor do seu?

– Mudei desde o ano passado.

O rapaz, que fora dormir cedo, apareceu na cozinha para tomar café.

– Nossa. Como esse menino cresceu?!

– Outro dia era um nenê. Cresceu de repente.

Não lembraram a última vez que tomaram o café da manhã juntos.

Na sala: – Mas e agora? O que vamos fazer?

Olharam à tevê. O computador. Tablet e celular no sofá. Lembraram do amigo pastor. Ele havia emprestado três Bíblias. Um bilhete trazia sugestões de leitura.

O rapaz leu o Apocalipse. O marido se emocionou com a morte do filho de Davi. A mulher preferiu Ester.

– Esse Apocalipse é irado! Imaginem só: vi subir do mar uma besta que tinha sete cabeças e dez chifres. Era semelhante ao leopardo, e os seus pés como de urso, e a sua boca como de leão.

– Eu pensava que a história de Davi se resumia matar o gigante.

– A Ester foi uma mulher surpreendente.

– E essa, então, escutem: os quatro animais tinham seis asas, e ao redor, e por dentro, estavam cheios de olhos… É muito louco! Vou tentar desenhar esses seres.

No almoço. Ao invés de pedir lanche. A mãe foi para a cozinha preparar um banquete especial de sábado. O marido ajudou. O filho se divertiu com a sobremesa.

À noite, sem pizza, caminharam na Paulista. Descerem na estação Consolação e seguiram sentido Paraíso. Por volta das dez jantaram num chinês.

No domingo estavam liberados do jejum. Mas resolveram, bem cedo, irem ao Ibirapuera. Desplugados. Trocaram os digitais pelas analógicas bicicletas. O carro continuou na garagem.

Na volta. Final de tarde. Havia uma multidão em frente de casa…

Imagem de Michel Tompert  / Você é tão anos 2000

Imagem de Michel Tompert


Policiais. Sogras. Irmãos. Primos. O cachorro acompanhava o paramédico. Os vizinhos não entendiam. No sábado, ouviram conversas. Risadas. Cheiro esquisito de boa comida. No domingo, uma não movimentação estranha. “É bom dar uma olhada. Aconteceu alguma tragédia aí”.

Quase quarenta e oito horas offline. Sem SMS. Sem postar. Sem curtir. Nem compartilhar. Parentes e amigos foram checar. “Essa cidade está muito violenta. Vou viver em outro lugar”. O cachorro entrou na ambulância. “É o pessoal da cracolândia que está vindo para os bairros”.

– Afastem-se todos! Saiam rápido. Pode haver troca de tiros.

Ainda distantes, o casal e filho viram a porta de casa ser arrombada pela tropa de choque.

Por Gláuber Soares

A Nação Zumbi e o fã VIP

14 mar

Ao menos no cenário nacional, desde a Tropicália, nada foi tão revolucionário, criativo e musical quanto Chico Science e Nação Zumbi.

Vi os mangueboys surgirem com os seus tambores no Fanzine, programa da TV Cultura, apresentado pelo Marcelo Rubens Paiva, em 1993. No início não gostei. Fiquei com um pé atrás. Achava que estavam imitando o meu querido Olodum. Ainda tinha a metáfora da parabólica enfiada na lama. Recife. Mangue. Caranguejo. Não entendia tudo aquilo. Achava papo furado. Mas aos poucos fui percebendo que a levada era outra.

Baque de arrodeio, maracatu, embolada, hip hop e rock and roll – tava tudo ali, muito bem misturado e temperado. Antropofagia de primeira. Virei fã da banda que lideraria o manguebeat. Em 2000, após a prematura morte de Science, tive a oportunidade de entrevistar Jorge Du Peixe – que herdou o vocal.

Era um sábado de manhã. Descobri que a Nação Zumbi iria ensaiar à tarde na Woodstock – tradicional casa de shows de rock na rua da Consolação. Passei no apê do André (rapper Pirata) e fomos lá. Estava apreensivo. Não havia agendado. Não sabia se iriam me receber. Mas o meu maior receio era por ser muito fã do som dos caras. Não queria que houvesse mácula na minha paixão.

Cheguei antes deles. O pessoal da Woodstock nos deixaram entrar. Não demorou, e os mangueboys chegaram acompanhados de Clemente, da banda punk Inocentes, vixe!, outra lenda. Me apresentei a eles e, enquanto os músicos afinavam os instrumentos, Jorge Du Peixe me atendeu numa boa. Tivemos uma longa conversa. A entrevista foi publicada no portal eAprender(onde trabalhava) . Depois Du Peixe se juntou à banda  para passarem o som. Mas antes, ele mandou colocar meu nome na lista de entrada VIP para o show à noite. E assim, sendo VIP,  fiquei ainda mais fã dos caras.

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Beleza Pura

10 mar

Compartilho uma música que muito ouvi em minha adolescência. Que me traz as melhores lembranças dos verões na Bahia. Guitarra com sotaque baiano. Interessante como a música pode nos transportar. “Conchas do mar / Ela manda buscar pra botar no cabelo”. Posso sentir a maresia. O calor. O Gogó da Ema. “Não me amarra dinheiro não”. As pessoas. O clube. Meu pai. Deaço. Saudade, painho.

Não me amarra dinheiro não / Mas formosura
Dinheiro não / A pele escura
Dinheiro não / A carne dura
Dinheiro não
Moça preta do curuzu / Beleza pura
Federação / Beleza pura
Boca do Rio / Beleza pura
Dinheiro não
Quando essa preta começa a tratar do cabelo / É de se olhar
Toda a trama da trança / a transa do cabelo
Conchas do mar / Ela manda buscar pra botar no cabelo
Toda minúcia / Toda delícia
Não me amarra dinheiro não / Mas elegância
Não me amarra dinheiro não / Mas a cultura
Dinheiro não / A pele escura
Dinheiro não / A carne dura
Dinheiro não
Moço lindo do Badauê / Beleza pura
Do Iê Aiyê / Beleza pura
Dinheiro yeah / Beleza pura
Dinheiro não
Dentro daquele turbante do Filho de Ghandi / É o que há
Tudo é chique demais / Tudo é muito elegante
Manda botar / Fina palha da costa em que tudo se trance
Todos os búzios / Todos os ócios
Não me amarra dinheiro não,
mas os mistérios

(Grupo A Cor do Som / letra de Caetano Veloso)

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Conto: Primeiro Round

8 mar

ImageEle terminava o relatório do caixa para entregar ao chefe quando a sua esposa ligou.

- Amor, vamos aproveitar que hoje as crianças vão dormir na sua mãe para…
- Querida, hoje eu não posso ir ao supermercado. Tenho futebol com o pessoal do escritório.
- Não, amor.
- Depois rola uma confraternização. O patrão participa. Você sabe. Preciso participar.
- A fantasia…
- Quem não é visto não é lembrado. Fantasia?
- É que hoje eu estou tão inspirada.
- Ah é? Você iria usar a… Diz aí.
- A fantasia de ring girl?
- Hum-hum.
- Eu queria estrear o biquíni. O top. Desfilar pra você. Pena que hoje você não pode.
- Posso, sim. Uma faltinha não tem problema.

Primeiro a bater o ponto. Ele furou a fila do metrô. Precisava fazer umas compras. Quase   derrubou a lenta senhora na escada rolante. Tentou entrar no vagão de costas. Empurrando a massa. Murchou a barriga até que, enfim, as portas se fecharam. Perto de casa comprou flores. Vinho. Chantili. Taco de golfe. Após beijar a mulher – ainda sem a fantasia, correu para o banho.
Antes do primeiro round, uma leve salada para aliviar a fome.

- Nunca gostei desses tomates em miniatura.
- Nunca, amor?
- Nunca. O sabor deles é ruim demais.
- Desde que casamos a maioria das vezes eu uso tomate cereja na salada.
- E eu só pego a alface, a cebola, palmito.
- Por que não me disse isso antes?
- Você adora essas miniaturas de tomates. Se eu dissesse que não gostava você não iria mais comprar.
- Que lindo! Isto que é prova de amor.
- O amor está nos pequenos gestos.
- Após nove anos. Não me disse nada. Se sacrificou só porque eu adoro tomate cereja.
- Mereço um prêmio. Venha cá minha ring girl deliciosa. Vou finalizar você.
- Pe-raí!

Putz, ferrou! Ele sabia que depois desse “pe-raí!” a festa que ainda não havia começado não iria mais rolar. Era impossível, tanto quanto Israel ceder à Palestina ou o Corinthians ganhar a Libertadores, mas não custava tentar salvar o card principal.

- Como você está linda! Superou minhas expectativas.
- Por que resolveu me contar agora?
- Sei lá, amor.
- Você não me ama mais. É isso?
- Claro que amo.
- Se ao não dizer era prova de amor, agora que disse, significa que não me ama mais.
- Não, benzinho, pode continuar comprando tomate…
- São os três quilos e duzentos e vinte gramas. Eu sei. Não sou mais a mesma.
- Não é isso.
- Deve estar apaixonado por outra. Eu sei. Enjoou de mim.
- Querida…
- Sabe de uma coisa? Já sei de tudo. Vou dormir.
- Calma, amor. Venha cá. Quero ver direito. Uau, você tá maravilhosa! Cadê a placa do primeiro round?
- Me solte. Minha enxaqueca voltou. E trate de dormir no quarto das crianças.
- Amor, espera.
- …
- Querida, por favor, espera.

Soco na mesa. Palavrões. Ele enfiou a mão na travessa. Pegou um tomate. Cereja! Ia lançar o infeliz na parede quando teve uma colorida ideia. Cortou ao meio o pequeno tomate e passou maionese. Depois mostarda. Catchup. Molho barbecue. Pimenta. Manteiga. Não, manteiga, não. Sem mais o que passar. Experimentou. A combinação acompanhada do vinho ficou perfeita.

- Hummm, delícia.

Do quarto, ela gritou: – Nem adianta cantar essa música. Já estou de pijama.

Ele cortou todos os tomates. Cuidadosamente lambuzou cada um deles. Pegou a travessa. A taça de vinho. O taco de golfe. E se acomodou no sofá para acompanhar a reprise do UFC.

- Vaaai. Vaaaai. Finaliza! Aêêêê. Hummm, nossa, que delícia! Isso é bom mesmo.

Por Gláuber Soares

Correr Atrás do Vento – Capítulo 1

14 fev

– Aqui está ele, doutora.

– É esse aí, tenente, quem estava nos ameaçando?

– Positivo, doutora.

– É o sujeito que ligava tentando me extorquir?

– O próprio.

– Seu idiota! Você me deixou preocupada, sabia? Ameaçando me entregar para a imprensa se eu não soltasse uma boa grana…

– Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.

– Cale a boca!

– Aaai…

– Parabéns, tenente. Tô vendo. Fizeram alguns carinhos nele.

– O indivíduo fala demais, doutora. Viu como está a boca dele?

– O sujeito é do tipo que perde os dentes, mas não perde a piada… Vocês o pegaram no flagra?

– Positivo. Após colocar o fone no gancho prendemos o mala.

– Em qual bairro dessa vez ele estava?

– Num orelhão da Vila Maria.

– E o tal dossiê?

– Demos uma geral no carro do meliante. Encontramos no porta-malas. São aqueles envelopes ali. Estão cheios de documentos. Têm uma relação detalhada das nossas operações e outra dos nossos bens. Depois conto quem o ajudou. A doutora não vai acreditar.

– Mas está tudo sob controle? Corremos algum risco?

– Negativo. O risco é zero.

– Que patife! Pensou que iria tirar dinheiro de nós, é? Despacha logo ele, tenente. Depois retornem e me contem tudo… Ei, olhe aqui, maldito, nunca mais vou escutar a sua voz nem ver essa sua cara arrebentada.

– A gente ainda vai se encontrar no inferno, sua bruxa. Estarei te esperando…

– Vamos!

– Aaah!

– Você é quem vai para o inferno. Eu continuarei aqui, na minha delegacia.

Sexta-feira – 23h10

       No animado baile de formatura, em uma noite de verão na capital paulista, a alegria de quem, enfim, concluiu a faculdade de jornalismo mistura-se com o suor – agravado pelo nada confortável traje de gala – e a umas mil dúvidas.

Chegar ali foi uma grande conquista, motivo de comemoração num clube cinco estrelas ao lado de colegas e familiares, mas o que os aguarda? Será que todos chegarão em alto mar? Não. Nem todos os focas alcançarão o emprego de jornalista ou se manterão na profissão. Muitos tentarão, alguns ficarão pelo caminho, outros desistirão sem ao menos terem tentado, poucos, entre tantos, atingirão a sonhada meta.

Como no ciclo das tartarugas-marinhas, chega a noite em que os filhotes arrebentam a casca do ovo e partem em direção do mar. Uma boa parte consegue ultrapassar as primeiras barreiras da praia, mas poucos sobrevivem ao ataque dos polvos e tubarões. Essa difícil sobrevivência nos mares permite que apenas um filhote em cada mil chegue à idade adulta. O mar do mercado jornalístico também é assim, tão seletivo quanto os oceanos.

A faculdade, bem ou mal, fez a sua parte. Agora é o momento da escolha: encarar o mar cheio de dificuldades ou ficar na praia lamentando a sorte.

Dançando com o noivo, Carolina olha de um lado para outro do salão. Não acredito que ele não virá.

– Com licença, Marcos. Preciso ir ao toalete.

No caminho até o banheiro, Carolina segue perguntando aos colegas:

– Você viu o Guilherme?

A cada resposta negativa, o sorriso largo, sempre presente em sua face, vai aos poucos desaparecendo, dá lugar a um rosto triste e preocupado. Ao retornar, seu noivo nota que ela não está bem.

– O que você tem?

– Nada.

– Como “nada”? Carolina, eu te conheço. Qual é o problema?

– Acho que a minha pressão caiu. Aqui tá muito abafado. Vou lá fora.

– Eu vou com você.

– Não, não precisa, Marcos. Só vou tomar um ar fresco. Fique aqui com seus pais e minha mãe. Eu volto logo.

Carolina sai rápido. Ainda nas dependências do clube, senta num dos bancos mais afastados do salão de baile. Ela retira o celular da bolsa, olha para o aparelho, mas não disca número algum. Logo as lágrimas começam a descer pelo delicado rosto.

– Meu!, eu não sei nada de filosofia. Você tem que me passar cola.

– Eu também não sei, Carol.

Quando a professora se vira para apagar a lousa, Carolina, sem pedir licença, toma a prova de Guilherme.

– Você é louca?!

– Calma aí.

Depois de apagar a lousa, a professora resolve caminhar pela classe. Guilherme abaixa a cabeça, tentando disfarçar, olha a carteira vazia, como se lesse as questões da prova. Os segundos se passam e ele, sem o que fazer, continua cabisbaixo. Imagina a exigente professora sabendo que a colega tem a sua prova. Será um zero – além do vexame na frente de todos.

– Ei, você? – chamou a professora.

Pronto, me ferrei! Ao olhar para a professora, Guilherme percebe que ela não falou com ele nem com a colega e sim com o bedel que passava pelo corredor.

– Obrigada, Gui – agradeceu Carolina entregando-lhe a prova.

– Sua louca! – exclamou o rapaz.

– O que vocês estão conversando? – perguntou a professora.

– Nada, professora. Só pedi o branquinho para apagar uma palavra que escrevi errada – respondeu Carolina.

Ao lembrar da cara assustada de Guilherme, em meio às lágrimas, o sorriso retorna ao rosto de Carolina:

– Seu bobo. Você deveria estar aqui.

____

            Não, não devo estar lá! Do outro lado da cidade, deitado em sua cama, Guilherme se mexe bastante à procura de uma posição mais confortável, que lhe ajude a fugir para o mundo dos sonhos. Todo o esforço é inútil. Seus olhos insistem em permanecerem abertos e vagueiam na penumbra do quarto.

Ao lado da cama, pendurado numa cadeira, o smoking alugado para a formatura. Sobre o criado-mudo, entre o rádio-relógio e o CD dos Ramones, os convites que ele deveria ter distribuído. O rapaz liga o abajur. Nas mãos, segura uma fotografia, despedindo-se, ele encara o retrato que lhe sorri pela última vez e o rasga. Transforma a foto em dezenas de peças de um incompreensível quebra-cabeça. Olhando para o monte de papel em suas mãos, parecia que a primeira vez em que ele a vira fora há poucos minutos. Mesmo não querendo, sua retina ainda guardava todas as cores daquela noite.

Curso de jornalismo. Na classe do primeiro ano, quase três semanas após o início das aulas, uma nova aluna entra na sala. Ela segue discreta, tentando não atrapalhar a professora e senta-se ao fundo.

– Essa aula é de quê? – perguntou à mulher ao lado.

– De sociologia – sussurrou a mulher.

No intervalo, a nova aluna se muda para o outro lado do fundão e aborda o rapaz que lia um jornal.

– Você pode me emprestar o caderno?

A novata usava uma bandana azul-celeste na cabeça, uma blusa branca e calça no mesmo tom azul da faixa. Os cabelos negros, longos e bem tratados, davam a impressão dela ter surgido de um comercial de xampu.

– Oi – ela insistiu.  – Você pode me emprestar o seu caderno? É só por um instante.

Não sei se era a faixa azul na cabeça ou as longas madeixas negras. Talvez fosse a pele levemente bronzeada, os lábios vermelhos e carnudos ou sei lá o quê, mas havia algo diferente nela, algo que sobressaía. Se arriscasse um palpite, diria ser o brilho, tão cheio de vida, daqueles olhos. Os verdes olhos brilhavam intensamente.

– Claro. Pode pegar.

– Meu!, quanta matéria eu perdi – disse a moça folheando o caderno.

– É a primeira vez que você vem à aula?

– Estava viajando. Aproveitei as férias e fui curtir as praias de Porto Seguro. Você conhece Trancoso?

– Não.

– Então precisa conhecer, lá é tudo de bom.

– Além de bastante matéria, os professores passaram muitos trabalhos em grupo – avisou o rapaz.

– Trabalhos em grupo!? Posso entrar no seu grupo?

– Seja bem-vinda!

– Obrigada!

– Estou fazendo os trabalhos com o Henrique… ele faltou hoje.

– Espero não ter perdido nenhuma prova.

– Não, prova não teve.

Ainda folheando o caderno ela reclama: – Que zica, ninguém merece! Perdi tudo isso… e agora? Será que vou conseguir acompanhar as aulas?

– Se quiser, posso te emprestar o caderno. Você copia o que perdeu.

– Legal, mas eu vou é xerocar no meu trampo. Garoto, não sei por que, mas estou com um pressentimento que vamos nos dar bem.

– …

– Olha só como ele é super organizado, tem até uma agenda de trabalhos!

– …

– Ah! Deixe me apresentar, meu nome é Carolina, e o seu?

– Guilherme

Sexta-feira – 23h22

      A certeza de Guilherme se transformaem dúvida. Bocejando, ele observa o rádio-relógio. Talvez eu ainda possa chegar no baile antes da valsa. A vontade de ir luta contra o sono e, principalmente, contra o orgulho que busca algum fato como arma para convencê-lo do contrário, mas suas lembranças o traem…

– Guilherme, você vai passar por Santana? – perguntava Carolina.

– Vamos – assim respondia o rapaz toda vez que a moça lhe pedia carona, mesmo sem o bairro de Santana fazer parte do seu itinerário.

Guilherme sempre foi introvertido. Carolina não. Ela era o seu oposto, uma explosão de alegria. E naquelas caronas, aos poucos ele descobria um ser complexo, extremamente imprevisível.

– Carolina, pára de dançar, você está dentro de um carro – reclamou o rapaz ao parar num sinal.

– Qual o problema?

– As pessoas estão olhando.

– Ah, Gui, esse som é uma delícia! Você não gosta de techno?

– Não. Prefiro rock’n’roll.

– Meu!, você não tem noção, quando ouço techno não consigo ficar parada.

– É! Mas veja o casal, no carro ao lado, está rindo…

– Não se preocupe com as pessoas. Faça como eu: jogue os braços pra cima, feche os olhos, sinta a música e solte o corpo. Você vai gostar. Vai, Guilherme, mexa-se, é uma delícia. Experimente!

Carolina fazia coisas que Guilherme considerava esquisitas No entanto, de forma paradoxal, ainda que sem entender o porquê, no fundo ele gostava de ver aquelas loucuras, lhe fazia bem estar ao lado dela. Carolina também descobria um mundo diferente e se divertia ao deixá-lo vermelho de vergonha.

A carona seria até o terminal de ônibus de Santana, mas ele sempre a deixava na porta de casa, onde ficavam conversando por um longo tempo.

Sexta-feira – 23h28

– Ei, Carol, vamos voltar ao baile, filha.

– Oi, mãe. Que susto! Não percebi a senhora chegar.

– Eu sei o que está passando. O melhor é esquecer tudo que aconteceu.

– Ah, mãe, não sei o que faço.

– Nunca ouviu dizer que coração e razão nem sempre andam de mãos dadas? Siga a voz da razão.

– …

– Carolina, o seu noivo é maravilhoso, ele te adora. O rapaz é de uma ótima família e faz tudo por você. Não desperdice a sorte por algo que pode ser apenas uma ilusão.

– Estou confusa.

– Lembre-se que você se casa na semana que vem.

– Nem sei mais se vou me casar com o Marcos.

– Ora, filha! Não se deixe enganar.

– Como não? As escolhas pra mim são sempre difíceis.

– Vou contar algo que eu preferia esconder. Filha, com esse mau exemplo espero ajudá-la a tomar a decisão correta. Eu mudei totalmente a minha vida, ainda moça, por causa do seu pai. Enfrentei tudo para ficar com ele. Não dei ouvidos ao que minhas amigas diziam, muito menos aos conselhos dos meus pais. E o que aconteceu comigo? Fiquei grávida de você. Quando fiz o exame e tive plena certeza, muito feliz, numa linda noite como esta, fui contar a quem eu pensava ser o grande homem da minha vida. Porém, a reação dele não foi o que meu coração apaixonado esperava. Estávamos dentro do carro, num bairro distante da minha casa. Ele dirigindo, começou a gritar, dizendo que eu não deveria ter deixado acontecer e exigiu que a gravidez fosse interrompida. Respondi que não iria abortar, ele então brecou de repente o carro, me mandou sair e que só voltasse a falar com ele após ter feito o aborto. E assim, no meio daquela rua escura e deserta, sem dinheiro para tomar um ônibus, acabou nossa love story.

– Que cachorro!

– Tenha cuidado com a sua escolha, Carol. O nosso coração é enganoso.

– Obrigada, mãe, por não ter me abortado. Te amo!

– Eu jamais faria isso, querida. Agora, vamos entrar, seu noivo está preocupado e já, já começa a valsa dos formandos.

____

            Dez minutos. É o prazo máximo que Guilherme se dá para decidir se vai ou não ao baile. Preciso resolver logo e acabar para sempre com esse dilema. Não posso viver assim, não vale a pena. Era impossível não lembrar de certos momentos…

No primeiro dia de aula, após a Festa de Alforria dos bichos, os colegas não perdoaram. Reunidos na praça de alimentação, lembraram de Guilherme bêbado.

– Olha lá, Guilherme, sua santa protetora está vindo em nossa direção – alertou Henrique.

– Uau, que gata, hein!? – comentou Ricardo.

– É! Ela é muito gata mesmo! – exclamou Pedro. – Na próxima festa vou tomar todas, assim ela também vai cuidar de mim.

– O professor Cláudio não vem hoje e ninguém vai ficar só pra última aula. – Avisou Carolina. – Guilherme, você vai passar por Santana?

– Vamos.

– Então você vai me dar uma carona?

– Claro. Mas antes tenho que pegar o meu material.

– Não precisa, está aqui, já peguei.

Após se despedirem dos colegas, Carolina e Guilherme saíram da praça de alimentação.

– Gui, vamos passar na loja de cosméticos? Vou comprar um creme para as mãos. É rápido.

– Vamos.

– Sabe o que falta nesta facul?  – perguntou Carolina, enquanto caminhava.

– O quê?

– Um salão de cabeleireiro e manicure. Meus sábados seriam mais longos. Sabe o que é ficar três, quatro horas do sábado num salão cuidando dos cabelos e das unhas?

– Também falta um cinema – disse Guilherme.

– Um cinema!?

– Por que não?

– Por que sim?

– Ué, neste campus tem até academia de ginástica. Se a aula estiver chata ou se o professor faltar, como hoje, a gente corre pro cinema. Assim não perco tantos lançamentos como tenho perdido.

– É verdade, garoto. Vamos à reitoria reivindicar um cinema.

– E também um salão de cabeleireiro.

No carro, o casal seguiu calado alguns quilômetros até Carolina mexer na sintonia do rádio.

– Pô! Eu gosto daquela música que estava tocando. Por que você tirou da estação?

– Porque era uma música meio romântica, não dá pra dançar… Além do mais, Gui, você não conhece a lei que determina: mudar a sintonia do rádio é um direito exclusivo dos passageiros?

– Quem criou essa lei?

– Eu acabei de criá-la.

– Sua tirana! Você é uma ditadora!

– Obrigada pelos elogios. Então é isso o que você pensa de mim, é?

– Não. Na verdade, você é…

– Meu! Não gostei de vê-lo na festa daquele jeito.

– Não entendi.

– Você estava diferente, bebendo muito.

– Ah, foi. Eu exagerei… obrigado pela sua atitude, o Henrique me contou.

– Eu cuidei de você como de um bebê, só não dei banho porque lá no toalete não havia chuveiro… Mas e aí, no dia seguinte, ficou de ressaca?

– Apesar do exagero, ainda bem que não.

– Gui, você está namorando aquela garota?

– Qual garota?

– A que você ficou no baile, acho que o nome dela é Rosemeire.

– Não! Não tenho compromisso algum com a Rose, aliás, hoje passei próximo dela e ela me virou a cara.

– Por quê?

– Talvez, sábado, eu a tenha deixado na mão.

– Ai, isso é horrível!

– E aquele cara? Ele é seu namorado?

– O nome dele é Marcos, estamos namorando há pouco tempo, mas não sei se vamos continuar.

– Ah é?

– Conheci ele em Maresias na semana passada e, como dizem, “amor do litoral não sobe a serra”.

Guilherme ficou diferente. Concentrando-se na direção, olhava fixo para frente, enquanto com a mão livre mexia numa alavanca do seu banco, ora inclinando-o um pouco para trás, ora para frente, sem nunca encontrar uma posição ideal.

O carro parou num sinal. Um garoto aproximou-se pedindo algo. Guilherme desceu o vidro, pegou em cima do painel algumas moedas e as entregou para o garoto. Seu olhar acompanhou o menino abordando outros motoristas. Sinal verde.

– Gui!, que noite bacana, né?

– Hum-hum.

– Olha só a lua cheia, que linda!

Ele não olhou para onde ela apontou.

– Ei, vamos comer? – Carolina convidou. – Estamos na Casa Verde. Aqui perto, na Brás Leme, tem uma lanchonete bem bacana.

– …

– O hambúrguer de lá é delicioso. Vamos lá, vai… tô morrendo de fome. Você vai gostar.

Antes de responder, valorizando, ele consultou o relógio, esperou alguns segundos e terminou o pequeno suspense: “Vamos.”

O local trazia uma decoração retrô. Com móveis estilizados e pôsteres de pin-ups nas paredes. Parecia uma lanchonete americana dos anos 50. Aquelas que se vê nos filmes da época. Quase lotada, conseguiram uma mesa numa área ao ar livre. O clima frio entre o casal logo se dissipou. Uma batatinha frita que caía na mesa ou um pingo de catchup na boca, tudo era motivo para calorosas risadas. Sentados um ao lado do outro, estavam de frente para uma Marilyn Monroe, presa à parede externa, em tamanho natural, com o seu vestido branco esvoaçante.

– E aí, gostou da lanchonete?

– Gostei. Esse hambúrguer realmente é bom. A decoração é legal.

– Eu queria me transportar ao passado e ser uma pin-up.

– Ah é? Por quê?

– Era uma época glamurosa.

– Você acha mesmo?

– As pin-ups eram tratadas como deusas. Seus pôsteres eram cobiçados…

– Hoje tem as revistas masculinas. Nem precisa você ir ao passado.

– Nada a ver. As pin-ups não mostravam muito. Usavam espartilhos, maiôs, biquínis, roupas intimas, raramente ficavam completamente nuas. Eram inocentes, apenas insinuavam… “Oops! Deixei a minha calcinha cair.”

– Parece mesmo interessante essa época. Gostaria de ter conhecido uma inocente pin-up.

– Então vamos voltar ao passado e eu me apresento a você.

– Onde compramos as passagens?

– Fecha os olhos que eu te levo.

Após terminar de comer o hambúrguer, Carolina ofereceu o seu sundae de caramelo. Ela encheu a colher e maternalmente levou até Guilherme. O rapaz inclinou-se para frente, abrindo a boca para receber o sorvete. Ele notou a colher vindo muito lentamente, abarrotada de sundae, precisava abrir mais a boca, mas, no último instante, ela a trouxe para si. “Humm, que delícia!”, provocou a garota, lambendo a colher por diversas vezes. Guilherme não esperava tal atitude. Ainda de boca aberta, ele olhou a sua volta. Parecia que todas as pessoas tinham visto e riam. Carolina se divertiu com o constrangimento causado e novamente ofereceu o seu sundae. Guilherme reclamou, disse que a brincadeira não tinha a menor graça. No entanto, ela garantiu: “agora é sério, meu!”. Com um sorriso maroto no canto dos lábios, Carolina encheu a colher e levou à boca do rapaz. Dessa vez ela não trouxe o sorvete de volta, porém, o que restou na colher passou nos lábios dele, lambuzando-o até o queixo.

– Você parece um bebê todo melecado de sundae. Deixa eu pegar meu celular para tirar uma foto.

Ele se calou, com sua boca a poucos centímetros dos lábios dela, as palavras só iriam atrapalhar.

Até então, nunca houve noite tão bela, nem Carolina tão meiga. Aqueles olhos encantadoramente verdes e cheios de vida passaram a brilhar com a lua – que de forma caprichosa se colocou ao lado do rosto dela. Da calçada, as copas das arvores vibravam com o vento ensandecido. A natureza se manifestava. Só as estrelas não compareceram, talvez com inveja da beleza da moça ou foram ofuscadas pela iluminação pública.

Depois de fotografá-lo, ela pediu desculpas e disse que iria limpar “essa grande sujeira”. Com o guardanapo retirou suavemente as marcas do sundae, primeiro do queixo e em seguida da boca, mas Guilherme reclamou:

– Pensei que você fosse limpar de outra forma.

– De que forma?

– Com a língua.

Ela se curvou, chegando mais perto do rosto dele, com os dedos tocou-lhe suavemente nos lábios e murmurou:

– Hummm, estou vendo… por aqui ainda há um pouco de sundae.

– Por que você não limpa?

– Ok! Como sou uma pin-up bem educada, vou limpar tudo que sujei…

Pam! Pam! Pam! Pam! Pam! Pam!

Antes de Carolina o atender, uma atendente da lanchonete os interrompe: – Com licença, o carro com o alarme disparado não é de vocês?

– É! É o meu carro.

– Faz uns dez minutos que o alarme está tocando.

– Não havia percebido. Eu vou lá.

No estacionamento, dois seguranças analisavam o carro. Não encontraram indícios de arrombamento, o alarme havia disparado sozinho. Para evitar novo transtorno, um dos seguranças recomendou deixá-lo desligado.

Olhando-se no retrovisor, Guilherme aproveitou para ajeitar os cabelos e checar se os dentes estavam limpos. Quando retornou, Carolina não estava mais à mesa. Ela deve ter ido ao banheiro, pensou. No entanto, ao sentar-se, ele encontrou em cima da mesa um bilhete:

Guilherme,

desculpe-me, mas às vezes é necessário fugir.

Saiba que você é muito especial…

Te vejo amanhã na aula.

Beijos, Carolina.

Guilherme pegou o bilhete e saiu correndo. Na calçada, procurou por Carolina. A viu longe, entrando num táxi.

­            – Carol! – ele gritou.

Ela sentou-se. Fechou a porta. Olhou para trás e acenou. Guilherme ainda ensaiou uma corrida, mas o táxi partiu e ele permaneceu na calçada, observando o carro desaparecer numa curva da Brás Leme.

Sexta-feira – 23h39

         Sonhos, quem consegue defini-los? São fragmentos da realidade? Exibição aleatória das paixões da alma? Será uma forma de Deus compensar o tão limitado e vigiado mundo real ou nada mais que um modo stand by de existência enquanto as nossas células se recarregam?

Guilherme não sabia se estava dormindo ou acordado. Se tudo que passou nos últimos meses fora apenas um pesadelo de uma noite de verão mal dormida. Ainda era confuso. Os órgãos do seu corpo reagiam como se fosse real: o coração continuava apertado, a respiração ofegante, a incômoda dor na cabeça não ia embora. No entanto, seu consciente (ou o inconsciente?) insistia em dizer que tudo o que houve não passava de um inofensivo delírio.

Ele levantou-se, de forma mecânica vestiu o smoking, pôs a gravata, calçou os sapatos, prendeu a faixa na cintura – estava quase pronto para ir ao baile. Guilherme, enfim, resolvera o seu dilema e iria lá fora, sem medo. Só faltava pentear os cabelos. Mas ao invés de sair do quarto escuro, cobrindo-se com o lençol, ele voltou para a cama.

O barulho da porta do seu quarto se abrindo assustou o rapaz. Sempre batiam antes de entrar. Naquela escuridão era impossível ver quem era. Ele tentou ligar o abajur, mas a lâmpada parecia queimada.

– Quem está aí?

Ainda na escuridão a porta é fechada com força. Barulho de passos se aproximando.

– Sou eu, Gui!

Guilherme tateou a parede até encontrar o interruptor.

– Carolina?!

Ela estava vestida num sobretudo escuro.

– Eu vim te sequestrar para levá-lo ao baile…

Ela seguiu em direção a ele.

– Mas vai tirando o smoking porque antes precisamos celebrar essa noite.

Após desabotoar os botões do sobretudo, ela o deixa cair no chão, revelando seu corpo nu. Carolina continuou se aproximando de Guilherme, que permanecia deitado. Ela saltou sobre ele, beijando-o na boca. As mãos do rapaz logo seguiram para os seios redondos e cheios. Depois do beijo demorado, ainda dominando a situação, Carolina conduziu seus seios aos lábios de Guilherme. Ele começou a sugar o peito mais próximo, provocando gemidos. Com os lábios ocupados, o rapaz movimentou a cabeça para vislumbrar o rosto de prazer da moça, mas o que viu foi um semblante horrorizado. Ela de forma abrupta tirou o seio da boca dele e se afastou: – Não toque em mim! Não toque em mim! Guilherme tentou acalma-la, mas Carolina continuava pedindo que ele não a tocasse. Num país das maravilhas terrivelmente deformado, enquanto gritava, o verde dos olhos escorria nas lágrimas. O lençol branco mudou de cor. Os olhos dela tornaram-se negros. Reluzentes e assustadores. – Não toque em mim! – Não toque em mim!

Por Gláuber Soares

Microcrônicas para São Paulo

25 jan

1 – São Paulo é rica, pobre, bonita, feia, grande, gigante. Tem craque nos campos de futebol e crack nos Campos Elíseos. Amo São Paulo.

2 – São Paulo é mãe que cria os filhos sem ajuda do pai. Mas não deixa faltar o pão, feijão, macarrão, meu!, amor. Amo São Paulo.

3 – São Paulo me alimenta. São Paulo me devora. Amo São Paulo.

4 – Às 5h45 espera o elevador. Às 6h aguarda o ônibus. Às 6h23 um lotação para. Lotado. Mas sempre cabem mais oito. O rapaz encosta. Trânsito parado. Chega atrasada no trabalho. Amo São Paulo.

5 – Mora na Penha. Trabalha na Lapa. Encontra a namorada na Vila Medeiros. Namora no Tatuapé. Mas quando morrer quer ficar na Saudade. Amo São Paulo.

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